Um mês depois de os holandeses banirem o
voto eletrônico, agora é a vez dos Estados Unidos.
Segundo notícias da revista Time Magazine desta
semana, dois senadores democratas dos Estados Unidos apresentaram
projeto de lei propondo banir o voto eletrônico, a exemplo do
que ocorreu na Holanda.
A proposição dos senadores Bill
Nelson, da Flórida, e Sheldon Whitehouse, de Rhode Island,
ambos do Partido Democrático, é no sentido de que as
urnas do tipo DRE (Direct Recording Electronic Voting), similares
às que são utilizadas no Brasil, não sejam
mais utilizadas nos Estados Unidos, por serem consideradas
inseguras, além de não oferecerem nenhuma
transparência durante o processo eleitoral. Contudo, os
senadores são favoráveis à tecnologia que
ofereça mecanismos de impressão do voto e,
principalmente, à tecnologia de leitura óptica para
contagem de votos.
A preocupação, no momento,
é o que fazer diante de gastos de quase meio bilhão
de dólares com urnas eletrônicas inseguras. Os
americanos sempre questionaram o elevado custo de urnas
eletrônicas, embora o voto eletrônico nos Estados
Unidos seja utilizado por apenas 20% dos eleitores. O sistema de
votação nos Estados Unidos é muito diferente
do de outros países, uma vez que os americanos podem
utilizar diferentes formas de votar, ou seja, voto
eletrônico, voto de papel, leitura óptica etc.
Desde o ano 2000, quando os americanos foram
atormentados com a questão de contagem de votos, que
resultou na eleição do presidente Bush, os
políticos começaram a observar positivamente a
opção de voto eletrônico, já utilizado
no terceiro mundo, principalmente no Brasil e na Índia.
Aliás, a partir daí, as urnas eletrônicas
começaram a ser utilizadas em várias partes do mundo,
mas sem a suficiente atenção com a questão de
segurança e transparência das
eleições.
Contudo, duas questões ameaçavam
a utilização da urna eletrônica nos Estados
Unidos: a primeira dizia respeito à insegurança deste
instrumento de votação e a sua falta de
transparência, fato apontado já por especialistas e
acadêmicos brasileiros.
Nesse sentido, acadêmicos e
instituições americanas começaram um grande
movimento contra o voto eletrônico como o existente nos dias
de hoje. A outra questão tinha a ver com as
acusações de ligação da empresa
Diebold, fabricante de urnas eletrônicas, com o Partido
Republicado, do presidente Bush.
A Diebold, também é a fabricante
de urnas eletrônicas para o Tribunal Superior Eleitoral, mas
nunca foram levantadas suspeitas de seus negócios com o
governo brasileiro, apesar desta empresa ter comemorado o maior
faturamento de sua história de mais de cem anos de
existência, vendendo urnas eletrônicas para o governo
brasileiro, embora a história de implementação
do voto eletrônico no Brasil não tenha ainda sido
contada.
Face ao exposto, o que se pode concluir
é que o projeto de voto eletrônico, utilizando a
tecnologia atual e insegura, está sendo enterrado, sobretudo
quando se alega que as urnas eletrônicas, até o
momento, foram desenhadas e fabricadas ignorando os
princípios básicos de segurança e
transparência. Aliás, foi percebido que as
vulnerabilidades dos sistemas de votação
eletrônica eram surpreendentemente similares entre os
diferentes fabricantes, facilitando qualquer processo de
fraude.
Quem diria que, em tão pouco tempo, os
políticos americanos propusessem banir o voto
eletrônico, um mês logo após os holandeses terem
puxado a tomada dessa tecnologia. No momento, o mundo inteiro
está chegando à conclusão dos riscos do voto
eletrônico, fato alertado há mais de dez anos pelos
especialistas brasileiros, quando as observações
deles sempre foram ignoradas pelas autoridades governamentais e
pela imprensa burguesa deste país.
Hoje, no mundo desenvolvido, os mais
críticos já começam a propor que
indenizações sejam cobradas dos fabricantes de urnas
eletrônicas, da mesma forma que são cobradas das
empresas de tabaco, por conta dos riscos causados à
sociedade.
Espera-se que, no Brasil, a classe
política também tome posição sobre a
nossa pobre tecnologia de voto eletrônico. Diante de muitos
negócios e pouca transparência e democracia, é
possível que alguns países, inclusive o Brasil,
façam um esforço para alinhar negócios com
segurança e transparência das urnas eletrônicas.
Mesmo assim, a questão de ampliação da
democracia e da alienação dos eleitores pela
tecnologia só vai ser resolvido num debate em que não
se separe tecnologia e cidadania.
Ainda bem que as democracias tradicionais
já começaram a fazê-lo, num momento em que se
propõe jogar no lixo milhares de urnas eletrônicas.
Pensar em urnas eletrônicas sem levar em
consideração o conceito de cidadania é
incentivar muitos negócios para as grandes
corporações, porém, com riscos,
prejuízos e exclusão digital para a sociedade, como
estamos registrando no momento.
Por José Rodrigues
Filho. O autor foi pesquisador nas
Universidades de Harvard e Johns Hopkins. Atualmente, é
professor da Universidade Federal da Paraíba.
Fonte:
http://congressoemfoco.ig.com.br/Noticia.aspx?id=19754