Fonte
De uma seção didática,
voltada para o público infantil, no site de uma
instituição como a Presidência da
República, deve-se esperar, no mínimo, duas coisas:
primeiro, que ela seja educativa e, segundo, republicana.
Não é o que acontece no site da Presidência da
República Federativa do Brasil.
Em artigo publicado em "O Estado de S.Paulo", o
historiador Marco Antonio Villa fez uma breve relação
dos erros e distorções ideológicas que
compõem a "Versão para Crianças" do site da
chefia de Estado e de Governo. No âmbito educacional,
trata-se de um problema grave. Em vez de propiciar uma
formação para a cidadania, o site tem um
caráter desinformativo.
É melhor começar comentando os
erros, pois eles são tão crassos que não
há como discuti-los. O site diz que a
primeira Constituição do Brasil data de 1822, o
ano da Independência. Na verdade, ela foi outorgada por dom
Pedro 1º à nação dois anos depois, em
1824.
Do mesmo modo, afirma-se que o
Duque de Caxias participou do afastamento de dom Pedro 2º.
Quando a República foi proclamada, em 1889, Caxias já
estava morto havia oito anos.
Ao chegar à história recente do
país, os erros fatuais abrem caminho para a eclosão
das distorções ideológicas, que não
são poucas. Por exemplo, afirma-se que
"em maio de 1978, ocorreu a primeira greve de operários
metalúrgicos desde 1964". As greves dos trabalhadores de
Osasco e Contagem, dez anos antes, parecem não vir ao
caso.
Aliás, nada parece vir ao caso nos
últimos 30 anos, se não se relacionar com Lula. Como
bem notou Villa, o site transforma o atual presidente num
"personagem onipresente na história do Brasil", nessas
últimas três décadas. Tanto que
Luiz Inácio da Silva é proclamado o líder "da
mobilização nacional contra a corrupção
que acabou no impeachment do presidente Fernando Collor".
Trata-se de um exagero. Lula contribuiu, sim,
para o afastamento de Collor, que hoje faz parte da base do
presidente. No entanto, a liderança do movimento
incluía muitos políticos de outros partidos e
instituições da sociedade civil, como a OAB - Ordem
dos Advogados do Brasil.
Não bastassem omissões e exageros
no trato da história, o site também peca na
extensão da
biografia de Lula, que é maior que a de todos os outros
presidentes da República, como ainda inclui uma biografia
de dona Marisa - a única primeira-dama brasileira que
tem a vida relatada aos jovens internautas.
O nome que se dá a isso há algum
tempo é o de "culto à personalidade" e a pedagogia
que dela deriva pode produzir efeitos desastrosos. E aí
é que se chega ao X do problema: transformar o site da
instituição Presidência da República em
peça de propaganda político-pessoal é misturar
a coisa privada, particular, partidária, com a coisa
pública. Em poucas palavras, é ser
anti-republicano.
Vale encerrar lembrando que a idéia de
República, nos tempos modernos, sempre caminhou ao lado do
conceito de uma educação sem
doutrinação, em especial nas repúblicas
verdadeiramente democráticas.
*Antonio
Carlos Olivieri é escritor,
jornalista e diretor da Página 3 Pedagogia &
Comunicação.